Telmo Romeu, Portugal -> Ucrânia, SVE

O Telmo Romeu fez o seu Serviço voluntariado Europeu na Ucrânia durante 12 meses.

Esta é a partilha da sua experiência!

Porquê Ucrânia? Nove em cada dez vezes que digo que sou voluntário, esta é uma das perguntas que infalivelmente aparece posteriormente. Mais curiosamente, acontece tanto com as pessoas ucranianas que por aqui vou conhecendo, como com os velhos conhecidos que de longe, lá perto de minha casa, me perguntam por onde ando. Embora para mim tenha sido uma escolha bastante fácil de tomar, é certo que não é uma pergunta fácil de explicar, pelo menos a quem nunca tenha praticado voluntariado a tempo inteiro.

Quero tirar desde já tirar as dúvidas que possam ter em relação a este local: a Ucrânia não é de facto um sítio que as pessoas achem atraente: as ruas têm buracos, os edifícios são feios, a língua é estranha e as pessoas pouco falam inglês. Mas seria injusto avaliar um lugar apenas por aquilo que salta aos olhos, ainda para mais quando falamos de uma experiência de voluntariado. Depois de oito meses cheguei ao fim da minha experiência de SVE em Sumy, no nordeste ucraniano, a cinquenta quilómetros da fronteira Russa, numa região que viveu a revolução de há três anos com especial atenção, tendo em conta os seus laços com o país vizinho. E, para mim, estas foram as condições que fizeram da Ucrânia um destino muito interessante para o meu voluntariado.

 

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1 As aldeias ucranianas não são tão diferentes daquilo que estamos habituados a ver em Portugal. São, no entanto, mais isoladas, com menos infraestruturas, e com mais animais domésticos à solta. Ainda assim, é mais fácil encontrar transportes públicos para lá chegar comparando com a situação portuguesa.

 

 

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2 Os blocos de edifícios dos tempos soviéticos são uma visão bastante comum um pouco por todo o país. Aqui morava um antigo grupo de voluntários, nos arredores de Sumy. O espírito de comunidade é ainda bastante importante nestes locais, com imensos parques infantis entre os prédios e sempre muitas pessoas juntas na rua.

 

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3 Ao nos afastarmos um pouco do centro da cidade (10 minutos a pé, neste caso) é bastante comum encontrar ruas secundárias de zonas habitacionais com passeios e estradas completamente degradadas.

 

O primeiro motivo que é mais fácil de explicar às pessoas em Portugal é que a população ucraniana está numa fase em que lhes é bastante benéfico um contacto “inocente” com culturas de outros países. O conflito e a rotura de relações entre Ucrânia e Rússia trouxeram uma espécie de crise de identidade. Há agora uma procura quase agressiva pela verdadeira cultura ucraniana, pelo hino, pelas cores, pela língua. No entanto, uma mudança de direção de 180o não é necessariamente o melhor para a população, principalmente numa região com uma percentagem tão elevada de descendência e linguagem russa como em Sumy.

 

 

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4 Um exemplo bastante óbvio do patriotismo que se vive: os baloiços dos parques infantis estão quase sempre pintados com as cores da bandeira ucraniana, o amarelo e o azul.

 

Aqui, posso ajudar os mais novos (e, de vez em quando, os mais velhos também em situações não tão oficiais) a falar, discutir e consolidar a sua identidade, as suas tradições, aquilo que querem, procuram e dão valor, com uma pessoa que vem de outro país e tem uma perspetiva diferente. Este é o resultado ideal que eu imagino da combinação entre as minhas capacidades e formação pessoal e um contexto de voluntariado. É um privilégio ver com os meus próprios olhos aquilo que durante muito tempo apenas estudei em livros e imaginei através de estereótipos: os efeitos que a história tem na cultura, nas pessoas, na sua personalidade e na sua terra. Neste capítulo, a minha escolha pela Ucrânia foi ideal.

 

 

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5 Durante uma visita à escola de uma aldeia onde os alunos tiveram contacto pela primeira vez com um voluntário vindo de outro país.

 

Mas a escolha do meu voluntariado não está relacionada apenas comigo. Espero que, com o passar do tempo, esta experiência ajude aqueles com quem tenho contacto a encontrar o seu espaço num contexto internacional, mas é difícil avaliar o impacto real que representamos.

Por um lado, as escolas ucranianas estão mais interessadas na aprendizagem da língua inglesa, o que por vezes formaliza demasiado as sessões que conduzo – crianças que não comunicam comigo com medo da correção do professor que está ao lado a vigiar é algo que acontece regularmente. Do outro lado, um programa financiado pelo programa Erasmus +, e, como tal, com uma inevitável ligeira propaganda europeia ligada aos seus objetivos. Não que eu tenha reservas perante isto – adoro a União Europeia, os seus valores e os seus projetos, mas é difícil transmitir isso humanamente às pessoas através de um veículo que elas consigam compreender e interiorizar, principalmente se para elas a EU representa apenas mais um concorrente no jogo de xadrez que tem sido o leste europeu. Além do mais, e voltado à questão inicial, seria de mau tom simplesmente responder aos ucranianos que me perguntam porque escolhi o seu país que “as vossas crianças precisam da minha ajuda!”

 

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6 Quase todos os ucranianos me dizem que não fazem parte da cultura europeia, apesar de, tal como o motto oficial da UE que podemos ver neste monumento afirma, haver união na diversidade cultural. Adicionalmente, grande parte da sua população não acredita ainda nalguns valores base da EU – o combate à discriminação vem à cabeça. Ainda assim, vejo muitas mais bandeiras, monumentos e símbolos relativos à União Europeia nas cidades ucranianas do que nas cidades portuguesas. Apesar de haver um longo caminho a percorrer para atingir a integração completa, é notória a vontade que as autoridades oficiais têm em o começar a trilhar o mais rapidamente possível.

 

O maior desafio para mim foi, portanto, tentar produzir atividades que conciliassem todos estes objetivos, estas expectativas e vontades de aprendizagem diferentes. Atividades que motivassem as pessoas e não fossem esquecidas na semana seguinte. Isso significa arranjar por vezes um jogo simples que todas os estudantes se divirtam a jogar, sejam eles bons ou não tão bons a inglês, mais novos ou mais velhos, tímidos ou mais extrovertidos. Se com esse jogo eles treinarem um pouco o seu inglês já deixam os professores mais contentes. Finalmente, e com um pouco de imaginação, é sempre possível introduzir pelo meio umas temáticas mais “sérias” e fazer com que esses jogos sirvam de veículo para discutir ideias e valores.

Espero que, com um bocado de sorte, todas essas reflexões que foram feitas enquanto aqui estive possam criar pessoas mais tolerantes, abertas, confiantes e curiosas nos próximos anos. E esse é, no final, o meu principal objetivo como voluntário: provocar uma mudança positiva nos outros e em mim mesmo.

Estaria a mentir de dissesse que a mudança em mim foi mais fácil de trazer que a mudança nos outros. As ocasiões que nos dão oportunidade de melhoramento pessoal são também aquelas que são mais difíceis de experienciar, digerir e interiorizar. Seja pela língua diferente, pelos desafios e dificuldades a nível profissional, ou pela cultura distinta no que toca ao relacionamento entre pessoas, muitas vezes dei por mim apenas a tentar lidar com os diferentes acontecimentos sem ter capacidade de realmente aprender com eles. Esta experiência ajudou-me a descobrir como reajo em situações difíceis ou conflituosas, e espero no futuro conseguir lidar melhor com elas e comigo mesmo.  No fim, talvez tenha sido esta a aprendizagem mais importante que retirei sobre mim: aprendi a aprender.

 

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7 Com outros voluntários, Luís, da Madeira, e Zuzanna, da Polónia, durante a participação num acampamento de férias de verão.

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